O Recife não apenas amanhece; ele desperta ao som de metais que cortam o ar e passos que desafiam a gravidade. 9 de fevereiro, a cidade celebra mais do que um gênero musical: comemora-se a própria identidade. A data, que marca os 118 anos da primeira vez que a palavra “frevo”, derivada da efervescência do “ferver”, estampou as páginas do Jornal Pequeno em 1907, transforma o asfalto em palco para uma das manifestações mais complexas e vigorosas da cultura brasileira.

A celebração, que reverencia o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade concedido pela Unesco, descentraliza-se para ocupar o coração geográfico e afetivo da capital. O “Entardecer dos Passistas” personifica essa resistência cultural, lançando uma centena de dançarinos e duas orquestras da Avenida Rio Branco em direção ao Pátio de São Pedro. É um fluxo contínuo de som e movimento que conecta o Bairro do Recife ao bairro de São José, transformando o trajeto em um corredor de história viva.

Simultaneamente, a orla de Boa Viagem resgata o lirismo dos blocos de pau e corda. Agremiações tradicionais como o Bloco das Flores e o Bloco da Saudade provam que o frevo possui nuances que vão da euforia frenética à melancolia poética, mantendo viva a memória dos antigos carnavais em pleno 2026. Essa dualidade é a essência de um ritmo que, embora tenha nascido da luta de classes e da proteção dos capoeiristas, hoje abraça todas as esferas da sociedade.

A inovação ganha fôlego no Teatro do Parque com a estreia do Recife Frevo Festival. Sob a batuta da Transversal Frevo Orquestra e vozes como as de Nena Queiroga e Silvério Pessoa, o evento propõe uma leitura contemporânea da música de orquestra, provando que o frevo não é uma peça de museu, mas um organismo em constante evolução. Enquanto isso, o Paço do Frevo cumpre seu papel de guardião, oferecendo ao público a precisão técnica da Orquestra Popular do Recife em um diálogo direto com a tradição.

Curiosamente, o calendário brasileiro reserva duas datas para essa celebração: o dia de hoje, focado na origem do termo, e o 14 de setembro, o Dia Nacional do Frevo, que homenageia o nascimento do jornalista Oswaldo Almeida. Juntas, essas datas formam um arco temporal que sustenta uma manifestação capaz de paralisar o tempo e, ao mesmo tempo, acelerar os corações de quem entende que, em Pernambuco, o ano só começa de fato quando a primeira nota do trompete anuncia que a vida, enfim, ferveu.





