Publicidade na pele: o fim do almoço grátis para as agências do “Mad Men”

​WPP e Jaguar Land Rover inauguram a era do skin in the game, transformando criativos em sócios compulsórios do risco comercial

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Durante décadas, o ecossistema das grandes agências de publicidade operou sob uma lógica invejável, quase divina: o cliente arrisca o capital, o consumidor arrisca o discernimento e a agência fatura o fee, independentemente de a campanha resultar em recorde de vendas ou em um silêncio sepulcral nas concessionárias. No entanto, o recente acordo entre a gigante WPP e a Jaguar Land Rover sugere que o verniz dessa zona de conforto finalmente começou a rachar. Ao atrelar parte de sua remuneração aos resultados de vendas da montadora, a WPP não está apenas assinando um contrato; está aceitando o convite para dividir a ressaca caso a festa não seja tão boa quanto o prometido no PowerPoint.

​Em 2025, a WPP movimentou a cifra astronômica de € 13,55 bilhões, um montante que muitas vezes parece blindado contra as flutuações do mundo real. O modelo tradicional de “horas faturadas” e comissões sobre mídia sempre permitiu que publicitários ganhassem prêmios em Cannes por filmes esteticamente impecáveis que, ocasionalmente, falhavam em mover uma única unidade de estoque. Agora, a Jaguar Land Rover inverte a lógica do cassino: a casa, ou melhor, a agência, só ganha se o jogador também levar o prêmio para casa. É a morte lenta da “criatividade pela criatividade” e o nascimento de um pragmatismo que deve causar calafrios nos corredores mais artísticos do setor.

​Este movimento não é um evento isolado, mas o sintoma de um mercado de US$ 400 bilhões que tenta justificar sua existência diante de algoritmos cada vez mais implacáveis. Se a projeção de US$ 1 trilhão para 2034 se concretizar, o capital não aceitará mais financiar apenas “branding” e “consciência de marca” sem uma contrapartida tangível no balanço financeiro. A era dos diretores de arte que se preocupam apenas com a tipografia do anúncio está sendo atropelada por uma exigência bruta de performance.

​O efeito cascata é inevitável. Quando o maior grupo de publicidade do mundo aceita colocar a pele em jogo, os contratos baseados puramente em vaidade e horas de reunião tornam-se relíquias de um passado analógico. Resta saber se as agências, acostumadas ao conforto do baixo risco, possuem o estômago necessário para lidar com a volatilidade das vendas reais ou se descobrirão, da maneira mais árdua, que vender um carro de luxo exige muito mais do que um filtro bonito e um slogan de impacto. A publicidade, enfim, deixou de ser apenas um gasto para tentar se provar, por contrato, um investimento.

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