O xadrez improvável: o plano de Flávio Bolsonaro esbarra na Realpolitik de Pernambuco

​Anotações do senador sugerem aproximação com Raquel Lyra, mas aliados da governadora e divergências internas no PL travam a montagem de um palanque híbrido.

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Os rascunhos de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o desenho geopolítico das próximas eleições revelam um desejo de expansão que ignora as barreiras ideológicas locais, mas a realidade nos estados impõe um freio brusco às pretensões do clã. Em Pernambuco, a ideia de uma aliança formal entre a governadora Raquel Lyra (PSD) e o bolsonarismo enfrenta uma resistência que une desde o núcleo duro do governo estadual até membros do próprio Partido Liberal. A governadora, que transita em um equilíbrio delicado entre o apoio administrativo do governo federal e a manutenção de sua base, não demonstra disposição para ceder o palanque a Flávio, priorizando a neutralidade de Lula na disputa local como moeda de troca para um eventual apoio à reeleição presidencial.

O impasse não se limita apenas ao campo da governadora. Dentro do PL pernambucano, o nome de Raquel Lyra aparece como uma opção pragmática, porém divisiva. Enquanto figuras como o deputado federal Coronel Meira admitem o voto na atual gestora por falta de alternativas viáveis à direita, descartando sumariamente qualquer aproximação com o prefeito do Recife, João Campos (PSB), outros nomes fortes, como Gilson Machado, rebatem a tese de uma união pacífica. Machado, pré-candidato majoritário e aliado de primeira hora de Jair Bolsonaro, mantém o tom crítico à gestão estadual, evidenciando que a “unidade” rabiscada por Flávio está longe de ser um consenso nas bases.

​A fragmentação estende-se para as vagas ao Senado, onde nomes como Anderson Ferreira e Mendonça Filho aparecem em meio a rasuras e incertezas nos planos do senador. A dinâmica em Pernambuco reflete um fenômeno que se repete em outros estados estratégicos, como Minas Gerais e Paraná. No território mineiro, o vice-governador Mateus Simões (PSD) rechaça a pecha de “puxador para baixo” atribuída por Flávio, defendendo uma articulação que contemple tanto o legado de Romeu Zema quanto a força do PL, mas sem se submeter passivamente aos ditames de Brasília.

O que se observa, portanto, é um tabuleiro onde as peças se movem de forma muito mais autônoma do que as anotações do senador sugeriam. A tentativa de criar palanques amplos e ecléticos esbarra na necessidade de sobrevivência política regional e na dificuldade de conciliar projetos pessoais com as diretrizes partidárias nacionais. Para Raquel Lyra, o silêncio estratégico parece ser a arma mais eficaz para evitar desgastes precoces, enquanto o PL se vê diante do desafio de decidir se prefere uma candidatura própria pura, mesmo que isolada, ou se aceita o papel de coadjuvante em um governo que ainda flerta com a esquerda em nível federal.

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