O veredito de Itamambuca: a partida de José Álvaro Moisés e o fim de um ciclo intelectual

​Fundador do PT e crítico feroz da degeneração institucional, o santista que internacionalizou a ciência política brasileira deixa um vácuo no debate sobre a qualidade da democracia.

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​As águas da Praia de Itamambuca, em Ubatuba, impuseram um ponto final abrupto à trajetória de um dos pensadores mais inquietos da redemocratização brasileira. José Álvaro Moisés, aos 81 anos, não foi apenas mais um nome nos registros acadêmicos da USP; ele personificou a metamorfose do intelectual público que, após ajudar a parir o maior partido de massas da América Latina, teve a coragem de se tornar seu crítico mais analítico. Sua morte, confirmada na última sexta-feira (13) após um afogamento no litoral norte paulista, silencia uma voz que, até os últimos dias, insistia em diagnosticar as fragilidades do sistema político nacional.

Doutor em Ciência Política pela USP e com passagens por Oxford, Moisés transitava com a mesma fluidez entre os corredores da FFLCH e os fóruns internacionais da IPSA. Ele não se contentava com a teoria pela teoria. Sua obsessão era a “qualidade da democracia”, um conceito que ele dissecava para entender por que o brasileiro, embora votasse, sentia-se cada vez mais distante dos centros de decisão. Foi essa clareza que o levou a um distanciamento pragmático e doloroso do Partido dos Trabalhadores. Para ele, o PT sucumbira a um vício perigoso: o monopólio da legitimidade das ruas, uma miopia que, segundo sua análise ao Estadão, pavimentou o caminho para a ascensão da direita conservadora ao ignorar o mal-estar social que explodiu em 2013.

Seu legado transcende a polarização partidária. Como coordenador de Cultura Política na ABCP, Moisés institucionalizou o estudo sobre o comportamento do eleitor e a desconfiança nas instituições. Ele argumentava que a omissão das forças democráticas diante das falhas do sistema não era apenas um erro estratégico, mas um abandono de dever. Ao apontar que o presidente Lula havia “passado dos limites” ainda em 2010, Moisés não falava como um opositor político trivial, mas como um arquiteto que via rachaduras na estrutura que ele mesmo ajudara a desenhar.

A partida do professor deixa a ciência política brasileira órfã de um mediador capaz de dialogar com o mundo. Sua presença no Conselho Internacional de Ciências Sociais elevou o Brasil ao status de exportador de inteligência política, e não apenas de estatísticas eleitorais. Em um tempo de debates rasos e militâncias digitais, a sobriedade intelectual de José Álvaro Moisés fará falta para lembrar ao país que a democracia é um organismo vivo, que exige manutenção constante e, sobretudo, a honestidade de admitir quando seus próprios criadores se perdem pelo caminho.

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