A história do esporte brasileiro acaba de ser redesenhada de forma irreversível. Em uma manhã de sábado que desafia a lógica dos trópicos, Lucas Pinheiro Braathen cravou as lâminas de seus esquis na história ao conquistar a medalha de ouro no slalom gigante nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina. O feito não é apenas inédito; é uma ruptura estatística. Até hoje, o teto do Brasil no inverno era o nono lugar de Isabel Clark, em 2006. Braathen não apenas subiu o degrau que faltava, ele o fez com a autoridade de quem dita o ritmo da montanha.
O cenário da consagração foi a mítica pista do Stelvio Ski Centre. Lucas, que carrega no DNA a precisão norueguesa e o ímpeto brasileiro, deu um recital técnico logo na primeira descida. Ao marcar 1:13.92, ele estabeleceu um tempo que serviu de barreira psicológica para os outros 80 competidores. Na descida decisiva, onde o nervosismo costuma trair o talento, o brasileiro administrou a vantagem com uma sobriedade cirúrgica, cruzando a linha de chegada 58 centésimos à frente do suíço Marco Odermatt, atual campeão e lenda da modalidade.
A trajetória de Lucas é um roteiro de redenção e identidade. Após representar a Noruega em Pequim-2022 e chegar a anunciar uma aposentadoria precoce devido a divergências com a federação escandinava, o atleta optou por abraçar a bandeira da mãe, a brasileira Alessandra Pinheiro. O retorno em 2024 sob as cores verde e amarela não foi um movimento de marketing, mas uma escolha de pertencimento que culminou em um ciclo avassalador: foram cinco pódios em mundiais desde 2025, pavimentando o caminho para a glória olímpica deste sábado.

Visivelmente emocionado, Braathen dedicou a vitória à nova geração, reforçando que a origem ou a cor da pele não devem ser limitadores para quem ousa desafiar os elementos. Sua fala, proferida em um português fluente, ecoou como um manifesto de inclusão no ambiente tradicionalmente hermético do esqui alpino. Para ele, o ouro é o símbolo de um coração que bate no ritmo brasileiro, independentemente da temperatura externa.
O calendário, no entanto, não permite ressacas comemorativas. Na próxima segunda-feira, Lucas volta à pista para a disputa do slalom, acompanhado pelos brasileiros Christian Oliveira e Giovanni Ongaro. Se o ouro de hoje foi o sismo que abalou as estruturas dos esportes de inverno, a prova seguinte pode consolidar Braathen como o maior fenômeno multicultural da história olímpica recente. O Brasil, definitivamente, aprendeu a deslizar.





