O renascimento do concreto: silos do Moinho Recife convertidos em moradia subvertem a lógica da demolição

​Projeto assinado por Bruno Ferraz e Roberto Montezuma preserva a herança portuária ao transformar antigos depósitos de grãos em 251 unidades habitacionais de design circular.

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A paisagem do Bairro do Recife, marcada pela simbiose entre o estuário e a história industrial, ganha um novo contorno que desafia a obsolescência urbana. Onde outrora se armazenavam toneladas de grãos no início do século passado, agora pulsa a vida doméstica. O retrofit do Moinho Recife, orquestrado pela Moura Dubeux em parceria com a Revitalis, não se limitou a uma reforma estética; trata-se de uma cirurgia estrutural que converteu os colossais silos cilíndricos em 251 apartamentos, provando que a rigidez do concreto industrial pode ser acolhedora.

A solução arquitetônica de Bruno Ferraz e Roberto Montezuma respeita a geometria radical das estruturas originais. Em vez de apagar as marcas do tempo, o projeto as utiliza como diretrizes espaciais. No Silo 215, a abertura de um vão central atravessa os onze pavimentos, permitindo que a luz natural desconstrua a sensação de confinamento dos antigos depósitos. Já no Silo 240, os funis piramidais de descarga foram mantidos no lobby, servindo como esculturas utilitárias que narram a genealogia do edifício a quem atravessa o portal de entrada.

​Dentro das células circulares, as unidades, que variam entre estúdios de 19 m² e apartamentos de 68 m², exigiram um raciocínio espacial inventivo para acomodar o cotidiano moderno em perímetros curvos. Esta ocupação da Zona Especial de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural (ZEPH 09) representa um ponto de inflexão para o Recife Antigo, ao reintroduzir o uso residencial em uma área que, por décadas, foi estritamente comercial ou portuária, combatendo o esvaziamento do centro histórico após o horário comercial.

Para além da estética e do urbanismo, a obra se fundamenta em uma economia circular de baixo impacto. Ao evitar a implosão das torres e reaproveitar aço e concreto, o empreendimento mitigou a pegada de carbono comum a grandes canteiros. Esse compromisso social estendeu-se à Comunidade do Pilar, vizinha ao projeto, através do programa MD Social. A formação de mão de obra local permitiu que residentes da área fossem os próprios agentes da transformação, com a absorção integral dos alunos do curso de demolição controlada pela equipe de execução.

Reconhecido pelo CAU/PE como um expoente da arquitetura nacional para, o Moinho Recife deixa de ser um gigante adormecido para se tornar um manifesto sobre a longevidade das edificações. O projeto demonstra que o futuro das metrópoles brasileiras pode não estar na expansão desenfreada de novos terrenos, mas na capacidade intelectual de olhar para as ruínas do progresso anterior e nelas encontrar uma nova forma de habitar.

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