O peso invisível do copo: o trauma hereditário que molda a próxima geração

​A herança amarga do alcoolismo no Brasil vai além das estatísticas de saúde pública e infiltra-se na estrutura psíquica de crianças e adolescentes, perpetuando um ciclo de instabilidade emocional e violência silenciosa.

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No cenário epidemiológico das Américas, o Brasil ocupa um incômodo e trágico terceiro lugar em mortalidade masculina decorrente do álcool. No entanto, o dado da Organização Mundial da Saúde (OMS) revela apenas a superfície de uma erosão social muito mais profunda. Para além dos leitos hospitalares e dos registros de óbito, existe uma legião de “órfãos de pais vivos”, crianças e adolescentes que crescem à sombra da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), onde a dependência química deixa de ser um diagnóstico individual para se tornar uma patologia doméstica.

A dinâmica de uma casa regida pela instabilidade do consumo excessivo de álcool opera sob a lógica do medo. O lar, que deveria ser um porto seguro, transfigura-se em um ambiente de vigilância constante, onde o humor do progenitor determina a pressão atmosférica do convívio. Esse estado de alerta permanente corrói a fundação da autoestima infanto-juvenil. O sentimento de impotência diante da garrafa muitas vezes se converte em uma culpa introjetada, alimentada por um dependente que, em seus momentos de crise, projeta a origem de seu vício naqueles que são mais vulneráveis.

As cicatrizes desse processo não desaparecem com a maioridade. A literatura psicológica contemporânea aponta que adultos criados em lares alcoólicos frequentemente manifestam uma arquitetura emocional rígida ou fragmentada. São indivíduos que encaram a vida com uma seriedade paralisante, possuem dificuldade crônica em concluir projetos e nutrem uma desconfiança visceral em relação a vínculos afetivos. O isolamento surge como um mecanismo de defesa: prefere-se a solidão ao risco de repetir o caos da infância.

Romper essa inércia exige uma mudança de paradigma na forma como a sociedade e as redes de apoio abordam o tema. É imperativo desmistificar a dependência, tratando-a como a doença crônica que é, sem retirar a responsabilidade, mas oferecendo o suporte técnico necessário. A intervenção profissional não é um luxo, mas uma necessidade de reparação. Quando uma criança compreende que o alcoolismo do pai ou da mãe não é um reflexo do seu valor pessoal, as chances de ela replicar esse comportamento no futuro, ou buscar parceiros que mantenham essa dinâmica de dor, diminuem drasticamente.

​O diálogo consciente e a empatia são as únicas ferramentas capazes de ressignificar o trauma. No entanto, o peso dessa carga não deve ser carregado individualmente. O enfrentamento ao alcoolismo exige uma mobilização coletiva que passe por terapias de grupo e políticas públicas eficazes. Somente ao expor o que acontece entre quatro paredes será possível estancar a hemorragia emocional que, há décadas, compromete o futuro de milhares de jovens no mundo.

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