O milagre de São Francisco: como o Sertão subverteu a seca para alimentar o mundo

​Entre canais de irrigação e vinícolas premiadas, o Vale do Submédio São Francisco consolida-se como o novo Éden da fruticultura e do enoturismo nacional

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A imagem histórica de um Nordeste castigado pela aridez e pela retirada forçada deu lugar, nas últimas décadas, a um cenário de vanguarda tecnológica e exuberância verde. O Vale do Rio São Francisco, especificamente no eixo que une Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), não apenas desafiou a geografia do Semiárido como redefiniu o mapa da riqueza agrícola brasileira. Hoje, a região é a espinha dorsal de um setor que projeta o Brasil no topo da produção global de frutas, provando que a escassez hídrica é um obstáculo superável quando a gestão de recursos encontra solo fértil e engenharia de precisão.

 

 

O motor dessa transformação é a agricultura irrigada, que converteu mais de 35 mil hectares de Caatinga em um pomar ininterrupto. O “carro-chefe” dessa economia são as uvas e mangas, cujas safras superam as 700 mil toneladas anuais destinadas aos mercados mais exigentes da Europa e dos Estados Unidos. Mais do que números de exportação, o impacto real reflete-se na democratização do campo: projetos de irrigação estruturados permitiram que o pequeno agricultor operasse com a mesma eficiência técnica das grandes corporações, gerando um ciclo de pleno emprego e fixação do homem na terra com dignidade e sustentabilidade.

 

No entanto, a revolução do Vale transbordou os limites das fazendas. A região vive agora uma efervescência turística e gastronômica sem precedentes, ancorada no conceito de “terroir do sol”. Vinícolas instaladas em pleno sertão produzem rótulos premiados internacionalmente, explorando o fenômeno único da dupla poda, que permite colheitas de uvas em diferentes épocas do ano. O Vapor do Vinho, embarcação que navega pelas águas do Velho Chico, tornou-se o símbolo desse novo lazer, unindo a contemplação da natureza ao consumo de espumantes gelados sob o calor de 30°C.

A gastronomia local também se sofisticou, acompanhando a qualidade dos insumos que saem do solo irrigado. Pratos tradicionais, como a carne de sol e o bode, ganharam releituras contemporâneas em restaurantes que harmonizam a rusticidade sertaneja com a delicadeza dos vinhos produzidos a poucos quilômetros de distância.

 

A gastronomia ribeirinha é regida pelo ritmo do rio. O Surubim, com sua carne firme e poucas espinhas, é o protagonista absoluto, sendo servido grelhado ou na famosa Peixada Pernambucana. Outro destaque é a Curimatã, tradicionalmente preparada na brasa, preservando o sabor rústico que define a culinária do interior. Mais recentemente, o cultivo de Tilápia em tanques-rede no reservatório de Sobradinho adicionou uma opção versátil e sustentável, frequentemente encontrada em petiscos nas orlas de Petrolina e Juazeiro.

 

Petrolina e Juazeiro deixaram de ser cidades de passagem para se tornarem destinos finais, onde o visitante pode caminhar entre parreirais carregados, conhecer processos de alta tecnologia e terminar o dia assistindo ao pôr do sol no rio que é o pai dessa prosperidade. O Vale do São Francisco é a prova viva de que o desenvolvimento inteligente é capaz de transformar poeira em riqueza e isolamento em conexão global.

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