O loop da imprudência: a tragédia em Del Chifre e o gargalo geográfico de Olinda

​A morte de um adolescente de 13 anos reacende o debate sobre o "funil biológico" na Praia Del Chifre e a falha crônica na comunicação de risco entre o poder público e a população.

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A estatística de ataques de tubarão em Pernambuco, voltou a sangrar nesta quinta-feira (29). A vítima, Deivson Rocha Dantas, de apenas 13 anos, tornou-se o rosto mais recente de um fenômeno que mescla fatalidade biológica e negligência urbana. Ao ser mordido na base da coxa direita, uma zona crítica que inviabiliza o uso de torniquetes e acelera o choque hipovolêmico, o jovem não resistiu à gravidade dos ferimentos provocados, possivelmente, por um tubarão cabeça-chata (Carcharhinus leucas), espécie conhecida por sua agressividade e adaptação a águas rasas e turvas.

Deivson Rocha Dantas, de 13 anos, morreu após um ataque de tubarão em Pernambuco Reprodução/Redes Sociais

O incidente na Praia Del Chifre não é um ponto fora da curva, mas o sexto capítulo de uma série de ataques concentrados em um trecho específico da orla de Olinda. O local atua como um verdadeiro imã para predadores devido a uma configuração de engenharia secular: os recifes artificiais posicionados na boca da barra. Essas estruturas, outrora fundamentais para a navegação no antigo Porto do Recife, hoje alteram o fluxo das correntes marítimas, criando um movimento circular que aprisiona matéria orgânica e cardumes. Para o tubarão, a praia não é um espaço de lazer, mas um buffet natural potencializado pela topografia submarina.

Praia Del Chifre fica em Olinda, perto do limite com o município do Recife — Foto: Reprodução/TV Globo

Apesar dos esforços do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarão (CEMIT) em mapear os 22 quilômetros de alto risco da orla pernambucana, a barreira física das placas de sinalização tem se mostrado insuficiente diante do vandalismo e da resistência cultural. Das 150 placas instaladas recentemente pelo governo, as unidades de Del Chifre sofrem com a depredação constante, privando banhistas e surfistas do alerta visual imediato. O cenário revela uma desconexão profunda: enquanto a ciência explica o “loop” das correntes e a profundidade perigosa, a sociedade parece entorpecida por períodos de calmaria, ignorando que a restrição para atividades náuticas vigora desde 2004.

Surfista atacado por tubarão em Olinda (Marília Parente/DP)

A morte de Deivson interrompe um ciclo de quase três anos sem registros graves no estado, mas reforça uma lição antiga: a natureza não respeita tréguas temporais. A sobrevivência na costa pernambucana depende menos da sorte e mais da compreensão de que certas geografias são, por definição, exclusivas da fauna marinha. A transformação dessa realidade exige que a conscientização deixe de ser uma nota de rodapé governamental para se tornar um pacto coletivo de preservação da vida, mediado por figuras como o surfista André Sthwart, que converteu o trauma de um ataque em 2023 em uma cruzada pedagógica pelas areias de Olinda.

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