A estatística de ataques de tubarão em Pernambuco, voltou a sangrar nesta quinta-feira (29). A vítima, Deivson Rocha Dantas, de apenas 13 anos, tornou-se o rosto mais recente de um fenômeno que mescla fatalidade biológica e negligência urbana. Ao ser mordido na base da coxa direita, uma zona crítica que inviabiliza o uso de torniquetes e acelera o choque hipovolêmico, o jovem não resistiu à gravidade dos ferimentos provocados, possivelmente, por um tubarão cabeça-chata (Carcharhinus leucas), espécie conhecida por sua agressividade e adaptação a águas rasas e turvas.

O incidente na Praia Del Chifre não é um ponto fora da curva, mas o sexto capítulo de uma série de ataques concentrados em um trecho específico da orla de Olinda. O local atua como um verdadeiro imã para predadores devido a uma configuração de engenharia secular: os recifes artificiais posicionados na boca da barra. Essas estruturas, outrora fundamentais para a navegação no antigo Porto do Recife, hoje alteram o fluxo das correntes marítimas, criando um movimento circular que aprisiona matéria orgânica e cardumes. Para o tubarão, a praia não é um espaço de lazer, mas um buffet natural potencializado pela topografia submarina.

Apesar dos esforços do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarão (CEMIT) em mapear os 22 quilômetros de alto risco da orla pernambucana, a barreira física das placas de sinalização tem se mostrado insuficiente diante do vandalismo e da resistência cultural. Das 150 placas instaladas recentemente pelo governo, as unidades de Del Chifre sofrem com a depredação constante, privando banhistas e surfistas do alerta visual imediato. O cenário revela uma desconexão profunda: enquanto a ciência explica o “loop” das correntes e a profundidade perigosa, a sociedade parece entorpecida por períodos de calmaria, ignorando que a restrição para atividades náuticas vigora desde 2004.


A morte de Deivson interrompe um ciclo de quase três anos sem registros graves no estado, mas reforça uma lição antiga: a natureza não respeita tréguas temporais. A sobrevivência na costa pernambucana depende menos da sorte e mais da compreensão de que certas geografias são, por definição, exclusivas da fauna marinha. A transformação dessa realidade exige que a conscientização deixe de ser uma nota de rodapé governamental para se tornar um pacto coletivo de preservação da vida, mediado por figuras como o surfista André Sthwart, que converteu o trauma de um ataque em 2023 em uma cruzada pedagógica pelas areias de Olinda.






