A partir de maio, o “problema pessoal” que antes era resolvido no consultório particular do empregado passa a habitar oficialmente a planilha de custos e a matriz de riscos das corporações brasileiras. A atualização da NR-1 não é apenas um ajuste burocrático; é uma demarcação de território legal. Ao exigir que empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais, como a tirania das metas inalcançáveis, o assédio moral e a onipresença da sobrecarga, o Ministério do Trabalho retira o esgotamento mental da esfera da “resiliência individual” e o coloca onde ele sempre esteve: no desenho das rotinas corporativas.
A mudança chega no limite da exaustão nacional. Em 2025, o Brasil atingiu a marca sombria de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, um indicador de que o modelo atual de produtividade é, na verdade, uma máquina de moer capital humano. Até então, a saúde mental era tratada pelas organizações como uma política de bem-estar periférica, o “setembro amarelo” das frutas no café da manhã e das aulas de meditação em meio ao caos. Agora, a norma exige engenharia, não apenas empatia. O risco psicossocial agora tem o mesmo peso jurídico de um fio exposto ou de uma máquina sem proteção.
O desafio que se impõe para este semestre é o de evitar a “maquiagem normativa”. Há um risco real de que as organizações tentem converter a saúde mental em mais um check-box burocrático, preenchendo formulários estéreis enquanto mantêm culturas tóxicas intactas. No entanto, a nova NR-1 dá ferramentas para que o nexo causal entre o ambiente de trabalho e o colapso do trabalhador seja estabelecido com maior clareza. Para as lideranças, a era do “faça o que for preciso” ganha uma nota de rodapé cara e passível de fiscalização.
A eficácia dessa transição dependerá da capacidade do mercado em entender que o burnout não é um erro de sistema do funcionário, mas um defeito de fabricação do processo de trabalho. Se a norma for encarada com o rigor que a crise de saúde pública exige, poderemos ver o início de uma reestruturação do que significa ser produtivo no Brasil. Do contrário, continuaremos a ser um país de recordes médicos, tentando curar com burocracia o que só se resolve com uma mudança profunda na arquitetura do comando.





