Esqueça o hermetismo das galerias parisienses ou os manifestos conceituais que exigem um doutorado para serem decifrados. Romero Britto decidiu que a arte não deveria ser um quebra-cabeça existencial, mas sim uma estampa de caneca. Ao romper com o que muitos chamam de “elitismo artístico”, o recifense de origem humilde operou uma espécie de “esperanto visual”: uma linguagem tão imediata e inofensiva que uma criança em Tóquio ou um executivo na Faria Lima conseguem ler a mesma mensagem de alegria sem esforço cognitivo. Britto não quer que você pense; ele quer que você sorria e, de preferência, consuma.

Enquanto a história da arte reverencia Andy Warhol por elevar latas de sopa ao status de museu, Britto inverteu o fluxo. Ele pegou a própria arte e a transformou em um produto de massa com uma eficiência que faria qualquer CEO de multinacional chorar de inveja. Ele não é apenas um pintor de telas; é o mentor de uma holding global onde o pincel serve ao design, à moda e até à indústria automobilística. É o herdeiro comercial da Pop Art levado às últimas consequências, provando que o talento brasileiro pode ser exportado como uma marca de luxo capaz de brigar por espaço nas vitrines mais caras do mundo.

Mas o impacto de Britto vai além do merchandising. Sua obra funciona como uma ferramenta de diplomacia estética. Por ser vibrante e estrategicamente apolítica, sua estética é o lubrificante perfeito para engrenagens institucionais. Governos e corporações recorrem ao seu “soft power” para suavizar ambientes e transmitir mensagens de paz que não incomodam ninguém. Não à toa, ele foi embaixador da Copa de 2014, colaborou com a ONU e ocupa espaços geográficos, como o Hyde Park e o Aeroporto JFK, que muitos artistas considerados “eruditos” jamais ousaram sonhar.

Para os críticos que torcem o nariz para a repetição de padrões e o excesso de cores primárias, Britto responde com números e impacto social. Um dos aspectos mais consistentes de sua trajetória, e frequentemente omitido por quem o rotula como “meramente comercial”, é o seu papel como filantropo. Utilizando sua marca como um ímã de recursos, ele apoia mais de 250 organizações beneficentes. No fim das contas, Romero Britto parece ter compreendido algo que a academia ainda se recusa a aceitar: em um mundo complexo e sombrio, o otimismo padronizado não é apenas uma escolha estética, é um negócio bilionário e, surpreendentemente, uma arma diplomática.






