O DNA da folia: como o império, a fé e a resistência negra forjaram o carnaval brasileiro

​Da violência dos entrudos à engenharia social dos sambódromos, a maior festa popular do mundo revela uma complexa cronologia de sincretismo e poder.

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O Carnaval brasileiro é frequentemente vendido como um bloco monolítico de alegria, mas sua genealogia revela uma colcha de retalhos tecida entre a repressão e a liberdade. Embora a semente da festividade remonte às celebrações pagãs da Antiguidade e ao calendário litúrgico católico, funcionando como um último suspiro de excessos antes do rigor da Quaresma, a versão que conhecemos hoje é um subproduto de tensões sociais profundas. No Brasil do século 17, a diversão atendia pelo nome de entrudo. A prática, herdada dos portugueses, era marcada por uma interação física rústica: o arremesso de água, farinha e alimentos entre os foliões. Era um cenário de desigualdade nítida onde, enquanto a elite se protegia no interior de seus sobrados, a população escravizada ocupava as vias públicas, ressignificando o espaço urbano através do lúdico, ainda que sob o risco do castigo físico.

A transição da bagunça desordenada para a estrutura rítmica que define o país não foi imediata nem linear. Antes de o samba se tornar o hino oficial da nação, o Carnaval era regido pela cadência militar e binária das marchinhas. Inspiradas nas marchas populares lusitanas, essas composições dominaram os salões e as ruas no século 19. Foi nesse contexto que Chiquinha Gonzaga quebrou barreiras de gênero e classe com “Ó Abre-alas”, estabelecendo a primeira pedra fundamental da música carnavalesca brasileira. O samba, por sua vez, só pediria passagem de forma definitiva na década de 1910. Com o lançamento de “Pelo Telefone” em 1916, o gênero, de raízes africanas e marginalizado pelas autoridades, iniciou uma ascensão meteórica, deslocando as marchinhas para o campo da nostalgia e assumindo o protagonismo da identidade nacional.

Sambódromo

A institucionalização da festa atingiu seu ápice arquitetônico em 1984, com a inauguração da Passarela do Samba no Rio de Janeiro. O projeto de Oscar Niemeyer não apenas ofereceu um palco monumental para as escolas de samba, mas também alterou o léxico da língua portuguesa. Sob a influência do antropólogo Darcy Ribeiro, o termo “sambódromo” foi cunhado, unindo a essência rítmica brasileira ao sufixo grego que designa trajetórias e caminhos. Essa mudança retirou o Carnaval da improvisação das avenidas do centro histórico e o transportou para uma arena de precisão técnica e impacto econômico, elevando o desfile ao status de “maior espetáculo da Terra”.

Foto: Mazé Mixo

Contudo, a verdadeira alma do Carnaval brasileiro reside na resistência cultural preservada nos afoxés. Enquanto o Rio de Janeiro se organizava em notas e quesitos, a Bahia mantinha viva a conexão com a ancestralidade iorubá. Grupos como o Afoxé Embaixada da África, fundado em 1885, transformaram a rua em um terreiro público, onde a religiosidade do candomblé se fundia à música. Essa presença africana é o que impede que o Carnaval se torne um produto puramente comercial; é a “fala que faz”, tradução literal de afoxé, que garante a autenticidade de ritmos como o frevo e o maracatu, que floresceram simultaneamente em Pernambuco.

Foto: Alexandre Gondim

A prova de que a escala desse fenômeno desafia a lógica está no Recife, onde o Galo da Madrugada personifica a democratização absoluta da folia. O que começou em 1978 como uma reunião modesta de 75 entusiastas do frevo metamorfoseou-se em um gigante que arrasta mais de 2,3 milhões de pessoas pelas pontes e ruas da capital pernambucana. Reconhecido pelo Guinness Book, o bloco não é apenas uma estatística de multidão, mas um Patrimônio Imaterial que sintetiza a capacidade brasileira de transformar ritos ancestrais em uma catarse coletiva de proporções colossais. O Carnaval, portanto, não é apenas um feriado, mas o registro histórico vivo de um povo que aprendeu a dançar sobre suas próprias contradições.

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