O contrato social assinado no copo lagoinha

​A sutil arte de terceirizar o próprio fígado e a dignidade enquanto o garçom traz a saideira da saideira

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O álcool é o único inquilino que entra na sua vida com referências impecáveis, trazido pelas mãos de amigos em volta de uma churrasqueira, e acaba levando os móveis enquanto você dorme. A tragédia moderna não começa com um homem caído na sarjeta sob uma luz neon melancólica; ela começa com um brinde comemorativo por uma promoção, um término ou simplesmente porque é terça-feira e o sol se pôs. É uma sedução silenciosa, uma negociação de termos onde a moeda de troca é, invariavelmente, a sua autonomia.

O roteiro é um clássico da dramaturgia cotidiana. Ninguém acorda e decide arruinar o plano de saúde e o convívio familiar por esporte. A coisa toda é operística, feita de pequenas concessões. Primeiro, entrega-se a paciência com os filhos sob o pretexto de um “relaxamento necessário”. Depois, despacha-se a memória da noite anterior, tratando o apagão como uma anedota engraçada de escritório. O sujeito jura, de pés juntos e copo cheio, que possui as rédeas da situação, ignorando que o cavalo já mudou de dono faz tempo. É o paradoxo do controle: quanto mais você precisa afirmar que o tem, menos ele existe.

A cultura do “eu mereço” transformou a dependência em uma espécie de bônus de produtividade. Vendemos a ideia de que a liberdade reside na capacidade de esvaziar garrafas, quando, na verdade, a liberdade é o exato oposto, é a faculdade de olhar para uma dose e não sentir que ela é o único ponto de exclamação possível para o fim de um dia. O problema não é o álcool em si, que segue sendo o lubrificante social mais eficiente da história, mas sim o momento em que ele deixa de ser o figurante da festa para se tornar o diretor do seu comportamento.

​Pedir ajuda, em uma sociedade que fetichiza a autossuficiência e o estoicismo de boteco, soa quase como uma heresia. No entanto, a verdadeira inteligência reside em perceber que o script está ficando repetitivo e o final, previsível. Admitir que a conta não fecha não é um atestado de fraqueza, mas um exercício de lucidez sobre a própria vida. Afinal, continuar encenando que o barco está estável enquanto a água já bate no queixo não é heroísmo; é apenas uma má atuação que ninguém mais na plateia está comprando.

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