Enquanto as escolas de samba cruzam a Sapucaí discutindo enredos ancestrais, o brasileiro médio protagoniza um drama bem mais contemporâneo: a matemática aplicada à sobrevivência festiva. Se você sentiu que o seu dinheiro evaporou mais rápido que o álcool em gel em 2020, não é apenas impressão causada pelo excesso de sol. Um levantamento da Rico Investimentos revela que a famosa “cesta carnavalesca”, aquele kit básico de sobrevivência que vai da cerveja gelada à maquiagem que brilha no escuro, acumulou uma alta de 79,07% na última década.
O detalhe ácido dessa folia econômica é que esses itens decidiram correr o 100 metros rasos bem à frente do IPCA, que ficou na casa dos 64,77%. Na prática, a inflação do Carnaval é uma maratonista de elite que deixa o índice oficial para trás, comendo poeira e confete. Se a economia fosse um desfile, o setor de “Custos de Produção” ganharia nota dez em todos os quesitos, especialmente na evolução de preços.
A vilã da vez não é uma única figura, mas um conjunto de fatores que transformou o simples ato de abrir uma latinha em um investimento de alto risco. A cerveja, o combustível oficial do asfalto, subiu quase 60% em dez anos, empurrada pelo preço do malte e do alumínio. Já as bebidas destiladas, reféns do câmbio, deram um salto de 80,76%, provando que o dólar alto resseca a garganta muito antes da primeira dose. Para os adeptos do vinho, o cenário é ligeiramente menos catastrófico, mas apenas porque a bebida entrou tardiamente no radar estatístico do IPCA.
Para quem acredita que o luxo de se “montar” escaparia ileso, as notícias são igualmente desanimadoras. O setor de beleza e acessórios opera sob a ditadura dos insumos importados. Pigmentos, metais e pedras sintéticas decidiram acompanhar a cotação da moeda americana, empurrando as bijuterias para uma valorização de 61,76%. Até o corte de cabelo para garantir o visual no bloco sentiu o golpe, sendo inflado por uma combinação de aumento na renda disponível (para alguns) e a velha lei da oferta e demanda que pune quem deixa tudo para a última hora.
O golpe de misericórdia, contudo, acontece antes mesmo de o folião chegar ao destino. Deslocar-se pelo Brasil tornou-se um exercício de desapego financeiro. Com as passagens aéreas subindo 74,23% e o transporte rodoviário não ficando muito atrás, o brasileiro descobriu que o destino final de qualquer viagem de Carnaval é, invariavelmente, o vermelho bancário. No fim das contas, a única tradição que permanece intacta é a capacidade do cidadão de sorrir enquanto a economia tenta, sem sucesso, derrubar o seu estandarte de resiliência.





