O silêncio que ecoa em Bacabal há 30 dias não é um fenômeno isolado, mas o sintoma mais agudo de uma estatística que teima em crescer. O desaparecimento de três crianças no interior maranhense serve como o rosto humano de um balanço árido: em 2025, o Maranhão contabilizou 1.182 pessoas cujo paradeiro se tornou uma incógnita. O dado coloca o estado na quarta posição do ranking nordestino, atrás apenas de polos demográficos maiores como Bahia, Pernambuco e Ceará, evidenciando uma vulnerabilidade social que desafia as políticas de segurança pública.
O fluxo desses sumiços não é constante, apresentando picos alarmantes em meses como outubro e junho, que lideraram as notificações no último ano. Contudo, o que mais preocupa especialistas e autoridades é o perfil de quem some. Embora os adultos representem a maioria absoluta no estado (846 casos), o recorte nacional revela uma ferida aberta na proteção à infância: quase um terço dos desaparecidos no Brasil em 2025 eram menores de 18 anos. Mais grave ainda é notar que o desaparecimento de crianças e adolescentes cresceu 8% no país — o dobro do aumento registrado na média geral da população.
No Maranhão, a eficácia na localização ainda caminha a passos lentos se comparada ao volume de registros. Das mais de mil pessoas que sumiram no estado ano passado, apenas 244 foram oficialmente localizadas. Há também uma clara distinção de gênero que o sistema de segurança expõe: enquanto os homens compõem a maioria dos desaparecidos totais (64%), no universo infantojuvenil o risco se inverte, com as meninas representando 62% das ocorrências.
A resolução desses casos, segundo protocolos modernos de investigação, depende menos da sorte e mais da agilidade. O mito jurídico de que é necessário aguardar 24 horas para procurar a polícia caiu por terra diante da urgência da vida. O registro imediato, seja em delegacias físicas ou plataformas digitais, é o fator determinante entre o reencontro e a incerteza perpétua. Detalhes que parecem triviais — a vestimenta do dia, marcas particulares ou o contexto emocional da última vez em que a pessoa foi vista — formam o mosaico necessário para que as linhas de investigação façam sentido.
O cenário brasileiro, com 232 desaparecimentos por dia, exige que o debate saia das páginas de ocorrências e entre na esfera das políticas de prevenção e integração de dados. Enquanto o país assiste à contagem dos dias em Bacabal, a rede de denúncias pelos números 197 e 181 permanece como o canal vital para que o paradeiro desses cidadãos deixe de ser apenas um número em um relatório do Ministério da Justiça e volte a ser uma presença no ambiente familiar.





