Luto clandestino e a embriaguez do caos: o cinema como espelho do desmonte emocional

​Entre o álcool de Carolina Dieckmann e o silêncio cortante das cinzas islandesas, estreias da semana exploram o colapso do autocontrole sob a pressão da imagem pública

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​O cinema contemporâneo parece ter abandonado o interesse pela redenção para focar, com lupa e rigor matemático, no exato momento em que o indivíduo racha. Nesta quinta-feira, as telas brasileiras recebem duas obras que, embora distantes geograficamente, operam na mesma frequência da desintegração. Em (Des)Controle, o público testemunha o espetáculo da queda de uma mulher que, teoricamente, “tinha tudo”. Carolina Dieckmann interpreta uma escritora de prestígio que descobre, da pior forma, que as palavras não servem de escudo contra a asfixia das expectativas externas. A narrativa foge do clichê do vício como caricatura e abraça a bebida como o último refúgio de uma mente que já não suporta o peso da própria relevância.

 

Enquanto a produção nacional lida com o ruído da autodestruição, o drama islandês Quando a Luz Arrebenta opta pelo vácuo. A obra de Rúnar Rúnarsson mergulha no luto periférico, aquele que não tem direito ao velório oficial ou ao conforto social. A protagonista, após perder o amado em uma tragédia súbita, vê-se obrigada a realizar um exercício hercúleo de abnegação: esconder a própria dor para amparar a viúva “legítima”. É um estudo sobre a hipocrisia das convenções e a solidão de quem ama fora do roteiro permitido.

​Ambos os filmes convergem para um ponto comum de inquietação: a dificuldade de manter a fachada em um mundo que exige perfeição ou, no mínimo, uma dor organizada. Seja pelo excesso de substâncias ou pela escassez de espaço para o choro, as estreias da semana convidam o espectador a questionar até que ponto o controle sobre a própria vida é um fato ou apenas uma performance bem ensaiada. Onde a luz da razão falha, resta apenas o cinema para iluminar os destroços.

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