Geologia sob suspeita: o tremor que desafia os pilares da ponte Salvador-Itaparica

​Moradores acionam o Ministério Público após abalos sísmicos na Baía de Todos-os-Santos despertarem o receio de que falhas geológicas ativas comprometam a segurança da megaconstrução

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A solidez do projeto da ponte Salvador-Insel Itaparica, um dos empreendimentos de infraestrutura mais ambiciosos do país, passou a ser questionada não apenas por seus impactos ambientais e urbanísticos, mas por forças que emanam do próprio solo. O Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) incorporou a um procedimento administrativo uma representação de moradores que solicita a investigação rigorosa de abalos sísmicos registrados na região. O temor da comunidade, respaldado por dados técnicos, é que a magnitude dos tremores e a presença de falhas geológicas ativas tornem a construção de grande porte um risco estrutural iminente.

O alerta ganha contornos científicos com o monitoramento do Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis/UFRN). Entre junho e julho do ano passado, a região foi palco de eventos sísmicos que, embora de baixa magnitude, variando entre 1.7 e 3.0 mR na Escala Richter, foram suficientes para serem sentidos pela população. O maior desses abalos ocorreu a apenas oito quilômetros da costa de Vera Cruz, provocando vibrações em residências e reacendendo o debate sobre a estabilidade geológica da Baía de Todos-os-Santos.

Diante das evidências, a 5ª Promotoria de Justiça de Meio Ambiente e Habitação e Urbanismo acionou o LabSis/UFRN em busca de um boletim técnico detalhado. O objetivo é esclarecer o potencial de risco e o alcance desses fenômenos sobre a área prevista para a implantação dos pilares. Em despacho oficial, o Ministério Público destacou que o padrão de atividade sísmica crescente, aliado à localização sobre falhas geológicas conhecidas, impõe uma análise profunda sobre a viabilidade de uma obra desse magnetismo técnico em um terreno instável.

​Embora o MP-BA informe que, até o momento, não identificou um risco sísmico que exija a interrupção imediata dos planos, a pressão popular e a necessidade de garantias de engenharia elevaram o tom da fiscalização. O coletivo Ativista, formado por habitantes de Itaparica e Vera Cruz, argumenta que ignorar a geodinâmica local pode levar a desastres futuros. O caso agora coloca os projetistas da ponte diante de um desafio hercúleo: provar que os cálculos estruturais são resilientes o suficiente para suportar um solo que, ao contrário do que se pensava, dá sinais claros de movimento.

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