A diplomacia brasileira desembarca nesta segunda-feira (5) em uma Nova York sob tensão máxima, carregando o desafio de equilibrar princípios históricos de não-intervenção com o novo realismo geopolítico da região. A reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, convocada para discutir a crise na Venezuela após a captura de Nicolás Maduro por forças sob comando de Washington, encontra um Brasil que, embora cético quanto à eficácia do colegiado, recusa-se ao papel de coadjuvante. Para o Itamaraty, a prisão de Maduro, ocorrida em uma operação relâmpago no terceiro dia do ano, ultrapassou uma linha inaceitável de soberania, mas o tom adotado pelo embaixador Sérgio Danese será cirúrgico: o país deve condenar o método da intervenção externa sem transformar o discurso em uma salvaguarda nominal de Maduro, cuja defesa política foi abandonada em prol de uma transição eleitoral.
O Palácio do Planalto compreende que a retirada “a fórceps” de um mandatário vizinho estabelece um paradigma perigoso para a estabilidade sul-americana. Existe, contudo, o cuidado estratégico de não colidir frontalmente com a gestão de Donald Trump, aproveitando que a retórica da Casa Branca está, no momento, concentrada na Colômbia. Essa “distração” americana é vista como uma janela de oportunidade para que o Brasil siga consolidando parcerias comerciais e acordos de ganhos mútuos sem entrar no radar de hostilidades de Washington. O desafio brasileiro, portanto, reside em equilibrar-se nesta delicada corda bamba diplomática: repudiar o precedente intervencionista sem se isolar das potências globais.
Nos bastidores, a avaliação dos diplomatas brasileiros é de que o Conselho de Segurança padece de uma paralisia crônica decorrente do anacrônico sistema de vetos das potências permanentes. Sem uma reforma estrutural que modernize o órgão, as reuniões de emergência correm o risco de se tornarem palcos meramente performáticos com efeitos práticos limitados. Ao pedir a palavra mesmo sem assento permanente, o Brasil sinaliza que a paz regional e o Direito Internacional não podem ser negociados à revelia dos vizinhos geográficos. Enquanto Maduro se prepara para uma audiência em Nova York às 14h, o Brasil reafirma sua posição como a voz da moderação em uma América Latina politicamente fragmentada, defendendo que o futuro da Venezuela seja decidido nas urnas, e não através de operações militares estrangeiras.





