A ponte pré-histórica entre continentes: o titã maranhense que redefine a geografia dos dinossauros

​A descoberta do Dasosaurus tocantinensis em Davinópolis revela conexões migratórias inéditas entre a Europa e o Nordeste brasileiro durante o Cretáceo.

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O subsolo do Maranhão acaba de entregar uma peça que faltava no quebra-cabeça da evolução dos gigantes. Em uma obra ferroviária em Davinópolis, o que trabalhadores inicialmente confundiram com restos de preguiças-gigantes revelou-se, após cinco anos de investigação rigorosa, uma espécie inédita de dinossauro saurópode: o Dasosaurus tocantinensis. Com 20 metros de comprimento e uma estrutura que remonta a 120 milhões de anos, este titonassauriforme não é apenas mais um fóssil no catálogo nacional, mas uma evidência física de como a vida se dispersou pelo globo quando os continentes ainda ensaiavam sua separação.

​A trajetória da descoberta, detalhada recentemente no Journal of Systematic Palaeontology, começou em 2021 durante a terraplanagem da empresa Brado. O resgate dos fósseis, que incluiu um fêmur de 1,5 metro, além de fragmentos da bacia, braços e costelas, mobilizou equipes da Unifesspa, Univasf e do Museu Paraense Emílio Goeldi. O material foi extraído da Formação Itapecuru, uma unidade geológica datada de cerca de 115 milhões de anos, e o desafio taxonômico foi imediato. Diferente da maioria dos saurópodes encontrados no Brasil, o Dasosaurus pertence a uma linhagem que não se encaixa no grupo dos titanossauros tradicionais, exigindo a criação de um novo gênero para abrigá-lo.

​O aspecto mais disruptivo dessa descoberta reside na sua árvore genealógica. A análise filogenética aponta um parentesco estreito com o Garumbatitan morellensis, espécie encontrada na Europa. Essa conexão sugere uma rota migratória audaciosa: a linhagem teria surgido em solo europeu há 130 milhões de anos, atravessado o norte da África e alcançado o Nordeste brasileiro. Para os pesquisadores, o Dasosaurus atua como um “preenchedor de lacunas”, iluminando um intervalo de tempo em que a distribuição desses animais pela América do Sul ainda era nebulosa.

​Além do valor científico, o achado altera a percepção do potencial paleontológico da região. Enquanto outros fósseis maranhenses costumam ser encontrados em falésias costeiras ou margens de rios, a profundidade das rochas em que o Dasosaurus foi preservado indica que o interior do estado pode ser um vasto cemitério pré-histórico ainda inexplorado. Atualmente, o fóssil está sob a guarda do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão, em São Luís, servindo como um lembrete de que, sob os trilhos da modernidade, repousam segredos de uma era em que as fronteiras geográficas eram meras linhas imaginárias.

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