Em um cenário que mais parece um roteiro requentado da Guerra Fria, mas com figurinos de 2026, o embaixador do Brasil na ONU, Sérgio Danese, resolveu assumir o papel de adulto na sala durante a última reunião de urgência do Conselho de Segurança. O alvo da sua elegância retórica? A insistência dos Estados Unidos em aplicar o método “primeiro a bala, depois o debate” em solo venezuelano.
Com a paciência de quem explica a um herdeiro mimado que não se chuta o castelo de areia do vizinho, Danese resgatou o manual básico de convivência global. Para o embaixador, a tese de que “os fins não justificam os meios”, o mantra favorito de quem possui o maior orçamento bélico do planeta, não tem validade no cartão de crédito da legitimidade internacional.
A fala de Danese carrega o peso de quem conhece o histórico do continente. Ao mencionar que o uso da força evoca capítulos que “acreditávamos estar para trás”, o embaixador tocou na ferida aberta da América Latina: a mania externa de querer organizar a casa alheia com tanques de guerra.
A ironia, claro, não passou despercebida. Enquanto os grandes players globais tratam o Direito Internacional como uma sugestão opcional (estilo os “termos de uso” que ninguém lê), o Brasil insiste na exótica ideia de que as regras devem valer para todos, inclusive para quem tem poder de veto e porta-aviões imensos.
A Responsabilidade do Juiz que Não Apita
Cobrando o Conselho de Segurança com a firmeza de um bedel em escola de elite, Danese lembrou que a omissão é, na verdade, uma escolha. Se o órgão que deveria garantir a paz internacional continuar assistindo à “lei do mais forte” de camarote, ele corre o risco de se tornar apenas um clube de debates caro, onde o princípio da não intervenção é apenas uma frase bonita em um quadro na parede.
No fim das contas, a mensagem brasileira foi um lembrete desconfortável: se deixarmos que os fortes definam sozinhos o que é justo, a “justiça” passará a ser medida em calibre, e não em direito. E, para quem vive ao sul da linha do Equador, esse filme a gente já viu, não gostou e o spoiler é sempre sangrento.





