A soberania chinesa coloca o agronegócio brasileiro diante de um espelho

​Pequim ajusta sua estratégia de segurança alimentar, mirando a autossuficiência e sinalizando uma redução gradual na dependência das importações que sustentam a balança comercial do Brasil

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​A relação comercial entre Brasil e China, historicamente pautada pela compra massiva de commodities, começou a enfrentar sinais claros de uma virada de página. O gigante asiático, principal destino de 71% da soja e 54% da carne bovina exportada pelos produtores brasileiros, está pavimentando um caminho para diminuir sua vulnerabilidade externa. O objetivo agora é reduzir um rombo comercial no setor agrícola que atinge a marca de 124 bilhões de dólares, elevando a segurança alimentar ao status de prioridade estratégica nacional.

​Para concretizar essa meta, o governo chinês está replicando a cartilha que consagrou sua ascensão no mercado de veículos elétricos. O Estado está injetando incentivos fiscais vigorosos, tanto na ponta da produção quanto no consumo, para fomentar a modernização do campo. A ambição é clara: substituir o que vem de fora pelo que é produzido dentro de suas fronteiras ou gerado por novas tecnologias. As projeções para o fim desta década já apontam para uma queda de 25% na demanda por soja brasileira, o que representa um recuo de 23,5 milhões de toneladas. No longo prazo, a meta é ainda mais ousada, com a estimativa de que proteínas alternativas supram até metade da demanda doméstica por carne até 2050.

​Apesar da disposição em cortar laços de dependência, Pequim mantém os pés no chão ao admitir que a escassez de recursos hídricos e de terras agricultáveis impede uma independência total. O que se observa, portanto, não é um rompimento súbito, mas um movimento calculista de diversificação. Nesse rearranjo, o Brasil ocupa a posição de fornecedor garantido no curto prazo, servindo como margem de segurança enquanto a China utiliza o agronegócio dos Estados Unidos como uma peça de negociação em suas disputas políticas.

​Para o setor agropecuário brasileiro, o alerta está dado. A dependência de um comprador que ativamente trabalha para reduzir sua necessidade por produtos estrangeiros exige que o País repense sua pauta comercial. O sucesso do agronegócio nacional, que por anos serviu como um dos motores da economia, pode ser desafiado pelo avanço da inovação chinesa e pela busca por uma autonomia que, embora incompleta, já não depende tanto da porteira brasileira.

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