O arco moral de Jesse Jackson: o adeus ao arquiteto da “Coalizão Arco-Íris”

​O sociólogo que transformou o luto por Martin Luther King em combustível eleitoral e diplomacia humanitária encerra sua jornada aos 84 anos

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A história dos direitos civis americanos perdeu, nesta terça-feira (17), um de seus narradores mais persistentes. Jesse Jackson, o homem que não apenas testemunhou a queda de Martin Luther King Jr. na varanda do Lorraine Motel em 1968, mas que carregou o sangue e a urgência daquele momento para o centro do debate institucional, morreu em sua residência. Embora a causa exata não tenha sido detalhada, a longevidade de sua luta pública contra o Mal de Parkinson, diagnosticado em 2017, já desenhava o capítulo final de uma trajetória pautada pela resiliência física e política.

​Jackson não foi apenas um herdeiro do movimento de King; ele foi o responsável por traduzir a retórica das ruas para a aritmética das urnas. Ao fundar a Rainbow PUSH Coalition, ele desafiou a política externa e doméstica dos Estados Unidos a enxergar a pobreza e o racismo como problemas estruturais, e não meras notas de rodapé. Sua atuação na Conferência de Liderança Cristã do Sul na década de 1960 serviu de alicerce para o que viria a ser sua maior ousadia: as campanhas presidenciais de 1984 e 1988.

Aquelas candidaturas, outrora vistas como simbólicas pela elite de Washington, provaram-se disruptivas. Jackson mobilizou milhões de eleitores marginalizados, forçando o Partido Democrata a lidar com uma base multirracial e progressista que, décadas depois, pavimentaria o caminho para a ascensão de figuras como Barack Obama. Ele não buscava apenas a indicação; buscava a validação de que um filho do Sul segregado poderia ditar a agenda da maior potência do mundo.

Para além das fronteiras americanas, o “Reverendo”, como era respeitosamente chamado por aliados e adversários, operou como um diplomata paralelo. Suas missões humanitárias em zonas de conflito e suas negociações para a libertação de reféns e prisioneiros políticos consolidaram uma estatura que transcendia o cargo público que nunca ocupou oficialmente, mas que exerceu de fato na consciência moral da nação.

Jackson parte deixando um vácuo no ativismo intelectual e na sociologia aplicada à prática. Em um tempo de polarização rasa, sua trajetória lembra que o progresso social não é um acidente, mas o resultado de uma pressão constante e articulada. O homem que pregava “Mantenham a esperança viva” encerra seu ciclo, mas a arquitetura social que ajudou a projetar permanece como o alicerce para as próximas gerações que ainda buscam a justiça que ele tanto perseguiu.

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