O cenário político brasileiro despede-se, neste domingo (15), de uma de suas figuras mais resilientes e discretas dos bastidores do poder. Renato Rabelo, médico por formação e estrategista por vocação, faleceu em decorrência de complicações de um câncer que enfrentava com tenacidade nos últimos anos. Sua partida encerra um capítulo de seis décadas de militância que atravessou os porões da ditadura militar, o exílio e a complexa transição para a democracia institucional, consolidando-o como o sucessor intelectual de João Amazonas.
Diferente de lideranças que buscam o palanque pelo carisma retórico, Rabelo operava na engenharia das alianças. Sua gestão à frente do PCdoB, entre 2001 e 2015, foi marcada por um pragmatismo teórico sofisticado: a elaboração das diretrizes que permitiram a comunistas ocuparem ministérios e postos de comando em governos de coalizão dentro de uma estrutura capitalista. Foi sob sua batuta que o partido deixou as margens do debate para se tornar um pilar de sustentação da governabilidade, especialmente durante os ciclos de governo do Partido dos Trabalhadores.
O vínculo com Luiz Inácio Lula da Silva remonta à emblemática campanha de 1989, quando Rabelo ajudou a articular a Frente Brasil Popular. Aquela semente, plantada na redemocratização, germinou na vitória de 2002 e na subsequente entrada inédita do PCdoB na Esplanada dos Ministérios. Ao saber do falecimento, o presidente Lula ressaltou a “visão estratégica” do aliado, pontuando que a capacidade de Rabelo em aglutinar forças em torno da soberania nacional permanece como um manual para as gerações futuras da esquerda brasileira.
A trajetória de Renato Rabelo é indissociável da história das entidades estudantis. Ex-presidente da União dos Estudantes da Bahia e vice-presidente da UNE, ele personificou a resistência juvenil que, após a anistia, dedicou-se à reorganização partidária. Em nota, o PCdoB destacou que, mesmo com a saúde debilitada nos últimos três anos, o dirigente jamais se afastou totalmente da produção ideológica, deixando um legado de textos que tentam decifrar os dilemas do desenvolvimento brasileiro sob a ótica do marxismo contemporâneo. O sepultamento e as homenagens oficiais devem reunir as principais lideranças do campo progressista em um último tributo ao homem que transformou a utopia da resistência em prática de governo.





