A matemática dos postos de combustíveis brasileiros parece desafiar a lógica elementar do mercado: o insumo cai na origem, mas o preço sobe no destino final. Desde o final de 2022, observou-se um fenômeno de “tesoura” econômica. De um lado, a Petrobras promoveu um corte de 16,4% no valor repassado às distribuidoras; do outro, o consumidor viu o preço médio do litro saltar de R$ 4,98 para R$ 6,33. Esse descompasso de 37% transforma o ato de completar o tanque em um exercício de contabilidade criativa para as famílias, custando, em média, R$ 67,50 a mais por abastecimento do que há três anos.
A explicação para essa desconexão reside na complexa engenharia de formação de preços, onde a Petrobras é apenas uma engrenagem de um sistema multifacetado. Atualmente, a estatal detém apenas 28,4% do valor que aparece no visor da bomba. O restante é diluído em uma cadeia que envolve a mistura obrigatória de etanol anidro e as margens de lucro de distribuição e revenda. No entanto, o verdadeiro protagonista da recente escalada é o Fisco. Com o fim das isenções temporárias de tributos federais e o reajuste das alíquotas estaduais de ICMS, a carga tributária total saltou para 35,5% do preço final, adicionando quase R$ 0,50 por litro e neutralizando qualquer alívio vindo das refinarias.
Além da questão fiscal, a estrutura do setor passou por mudanças estruturais que limitam o poder de intervenção governamental. A privatização da BR Distribuidora é frequentemente apontada pela gestão da Petrobras como um divisor de águas: sem um braço logístico próprio, a estatal perdeu a capacidade de “induzir” baixas no varejo. O mercado agora opera sob uma lógica de pulverização onde cortes de custos no atacado raramente são transmitidos de forma integral ao consumidor. Na última redução de R$ 0,14 efetuada pela estatal, o potencial de repasse real para as bombas foi de meros R$ 0,06, evidenciando uma “perda de pressão” ao longo da cadeia logística.
Apesar da percepção de carestia que assombra o motorista brasileiro, o cenário sob uma perspectiva global revela uma ironia estatística. Quando convertido para o dólar, o combustível no Brasil, cotado em torno de US$ 1,17, permanece abaixo da média internacional de US$ 1,30. O país ocupa uma posição intermediária no ranking global, figurando entre as 50 nações com a gasolina mais barata do mundo. O problema, portanto, parece ser menos o preço absoluto do combustível e mais o desequilíbrio entre o custo da energia e o poder de compra real da população, em um mercado onde a política de preços da refinaria se tornou um detalhe diante da voracidade tributária e das margens do setor privado.





