No final da década de 60, o asfalto era um luxo distante no sertão, e a poeira, a fiel escudeira de Luiz Gonzaga. A bordo de sua Rural Willys 1961, um tanque de guerra com pretensões de passeio, o Rei do Baião cruzava as fronteiras municipais tendo como comitiva o jovem Dominguinhos no volante e Tororó do Rojão no triângulo. Para Gonzaga, a vida era um eterno deslocamento entre palcos improvisados em carrocerias de caminhão, onde a música pagava o pedágio da sobrevivência.
A rotina de nômade, entretanto, foi interrompida em uma estrada pernambucana por um clichê do desamparo: um Jeep parado e um cidadão gesticulando desesperadamente. O espírito gregário do nordestino, que Gonzaga personificava como ninguém, falou mais alto. Sob suas ordens, Dominguinhos manobrou a Rural para socorrer o desconhecido. O diagnóstico do estranho foi rápido e seco: “faltou gasolina”.
O que se seguiu foi uma demonstração da logística improvisada que rege o interior do Brasil. Quando Dominguinhos apontou a falta de um recipiente para a transferência do combustível, o dono do Jeep, com uma agilidade suspeita, sacou um vasilhame das profundezas do veículo. Gonzaga, cujo faro para a natureza humana era tão apurado quanto sua audição para o fole, não deixou passar. Questionou sobre a “mangueirinha”, aquela ferramenta indispensável para o “beijo” no tanque alheio. O homem, prontamente, exibiu o kit completo de sobrevivência rodoviária.
Após garantir que o Jeep tivesse fôlego para alcançar a próxima cidade, Gonzaga retornou à Rural tomado por uma crise de riso que desafiava a poeira da estrada. Diante da perplexidade de Dominguinhos sobre a identidade daquele “homem prevenido”, o Velho Lua entregou a sentença com o sarcasmo fino de quem já viu de tudo: o sujeito não era um precavido, mas um viciado. Um “viciado em gasolina” que transformou a pane seca em um método de abastecimento por cortesia alheia.
A anedota, resgatada dos relatos de Aldemar Paiva, revela que, no tabuleiro do sertão, nem todo pedido de ajuda é desespero; às vezes, é apenas a malandragem operando em modo econômico. Gonzaga, o mestre do ritmo, provou ser também o mestre da leitura das entrelinhas, rindo da própria generosidade ao perceber que, naquela tarde, o show não foi dele, mas do homem que fez da carência um estilo de vida acostumado.





