A terra, que por décadas bebeu o suor e o sangue de trabalhadores sob o jugo dos canaviais paraibanos, finalmente mudou de mãos no papel e no destino. A formalização do assentamento agroextrativista Elizabeth Teixeira, em Sapé, não é apenas um ato administrativo do Incra; é o desfecho de uma resistência que atravessou a ditadura militar e sobreviveu ao avanço agressivo do agronegócio monocultor. Ao destinar 133 hectares para 21 famílias da comunidade Barra de Antas, na Paraíba, o Estado brasileiro tenta quitar uma dívida histórica com o berço das Ligas Camponesas.

O simbolismo do nome escolhido para o projeto carrega o peso de uma era. Elizabeth Teixeira, hoje centenária, tornou-se o rosto da luta na Paraíba após o assassinato de seu marido, João Pedro Teixeira, em 1962. A emboscada contra o líder camponês, orquestrada por latifundiários da região, marcou o início de um período de repressão brutal que dispersou famílias e silenciou vozes, mas não conseguiu erradicar a memória da posse da terra como direito fundamental. Barra de Antas permaneceu como um enclave de persistência, onde a cana-de-açúcar, embora onipresente, nunca conseguiu sufocar a vontade de autonomia.
A transição da monocultura para o modelo agroextrativista sinaliza uma ruptura com a lógica produtiva que exauriu o solo e concentrou renda no Nordeste. Em vez de fileiras infinitas de cana destinadas às usinas, o novo assentamento propõe uma diversificação que respeita o bioma local e garante a segurança alimentar de quem nela trabalha. Esse modelo disruptivo de ocupação territorial é uma resposta direta aos conflitos agrários que, por mais de seis décadas, transformaram a zona da mata paraibana em um cenário de guerra de baixa intensidade.
Encerrar esse impasse em pleno século XXI revela a lentidão da engrenagem da reforma agrária no Brasil, mas também comprova que a justiça territorial é um processo de longa duração. Para as famílias beneficiadas, a titulação da terra representa a saída da invisibilidade jurídica e o ingresso em um sistema de produção onde o lucro não se sobrepõe à dignidade humana. A Paraíba, que foi laboratório para o despertar da consciência camponesa na década de 1950, torna-se agora o palco de um desfecho que, embora tardio, devolve o território aos seus legítimos guardiões.





