A narrativa é sedutora e conveniente: algoritmos onipresentes estariam assumindo o leme da produtividade, tornando redundante o esforço humano em larga escala. No entanto, o hiato entre o discurso de eficiência das Big Techs e a realidade operacional das ferramentas de inteligência artificial sugere que o setor vive uma espécie de “Placebo Tech”. Enquanto os conselhos de administração justificam demissões em massa com o advento da automação generativa, o chão de fábrica digital ainda lida com chatbots que alucinam e sistemas que exigem uma supervisão humana extenuante para entregar o básico.
O questionamento levantado pelo New York Times toca em um ponto nevrálgico: se a tecnologia ainda não atingiu o patamar de autonomia prometido, por que os cortes continuam sendo creditados à IA? A resposta parece residir menos na ciência da computação e mais na engenharia financeira. Ao rotular um layoff como consequência da modernização tecnológica, as empresas blindam-se contra a imagem de crise ou má gestão, substituindo o estigma do fracasso pela aura da inovação. É mais palatável dizer que o futuro chegou do que admitir que o crescimento desenfreado da era pandêmica foi um erro de cálculo monumental.
Além disso, o suposto “exército de silício” que substituiria os colaboradores demitidos ainda não deu as caras em termos de execução prática e criativa. A IA atual funciona como um copiloto útil, mas ainda incapaz de navegar sozinho em mares de ambiguidade e estratégia comercial complexa. Se as gigantes do setor possuíssem, de fato, uma tecnologia capaz de operar de forma autossuficiente nos bastidores de seus headquarters, o mercado não estaria assistindo a uma corrida desesperada por talentos humanos que saibam, ironicamente, consertar as falhas dessas mesmas máquinas.
O que se observa é uma distorção entre o potencial da ferramenta e o uso político que se faz dela. A inteligência artificial tornou-se o álibi perfeito para o capitalismo de plataforma reajustar suas margens de lucro sem perder o status de vanguarda. O perigo dessa estratégia, contudo, é o esvaziamento do capital intelectual das empresas antes que a tecnologia esteja pronta para suportar o peso da operação. No fim, a conta da eficiência pode sair cara quando as empresas perceberem que demitiram a inteligência real antes de garantir que a artificial fosse, de fato, inteligente.




