Aos 23 anos, Wesley de Jesus Batista personifica uma ruptura no ciclo de invisibilidade que costuma cercar jovens da periferia brasileira. Morador de Águas Claras, em Salvador, o filho de um pedreiro e de uma empregada doméstica alcançou o que muitos consideravam improvável: o primeiro lugar para o curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) via Enem. A vitória, no entanto, não é o ponto final de sua jornada, mas o início de uma transição geográfica e socioeconômica complexa.
O caminho até a aprovação foi pavimentado com recursos limitados e uma resiliência que ignora a falta de estrutura. Sem acesso a cursinhos de elite, Wesley estruturou sua rotina de estudos baseada em apostilas doadas e conteúdos gratuitos disponíveis na internet. O histórico de tentativas, iniciado em 2021, culminou em um vídeo que viralizou nas redes sociais, capturando o exato momento em que ele e sua família celebram a notícia. A imagem do jovem com “USP” e “Medicina” pintados no corpo tornou-se um símbolo de meritocracia real em um sistema que raramente oferece as mesmas ferramentas a todos os seus jogadores.
A aprovação na USP traz consigo o desafio pragmático da sobrevivência na capital paulista, uma das cidades com o custo de vida mais elevado do continente. Mesmo sendo uma universidade pública e gratuita, os gastos com moradia, alimentação e materiais didáticos representam uma barreira intransponível para quem não possui reserva financeira. Diante dessa realidade, Wesley lançou uma campanha de financiamento coletivo com o objetivo de arrecadar R$ 490 mil, valor calculado para garantir sua manutenção integral durante os seis anos de graduação.
Até o momento, a mobilização digital já angariou mais de R$ 125 mil, evidenciando uma rede de apoio que vê na história de Wesley um reflexo de esperanças coletivas. Para o futuro médico, a conquista transcende o âmbito individual; ela serve como um manifesto de que a educação pública, quando aliada ao esforço obstinado, ainda é o motor mais potente de transformação social. Wesley agora se prepara para deixar a Bahia rumo ao sudeste, carregando a responsabilidade de retornar, em alguns anos, como um profissional dedicado a retribuir à sociedade o investimento emocional e financeiro que recebeu de desconhecidos e entusiastas de sua trajetória.





