O fim de um casamento raramente encerra a disputa por poder entre os cônjuges; em muitos casos, ela apenas muda de cenário, deslocando-se da convivência conjugal para a arena da criação dos filhos. Estudos recentes em psicologia comportamental revelam que uma das facetas mais prejudiciais do pós-divórcio é a necessidade latente de um genitor se mostrar “melhor” ou “mais amado” que o outro. Essa competição de egos, muitas vezes disfarçada de cuidado excessivo, cria um ambiente de instabilidade onde a criança deixa de ser o sujeito do afeto para se tornar o troféu de uma disputa silenciosa.
Essa dinâmica de superioridade manifesta-se comumente através da polarização de papéis domésticos. É o que especialistas chamam de dicotomia entre o “genitor da diversão” e o “genitor da rotina”. Enquanto um dos pais assume a carga pesada de impor limites, monitorar o desempenho escolar e gerenciar as responsabilidades diárias, o outro utiliza o tempo de convivência para promover um festival de concessões. Ao oferecer presentes constantes, viagens luxuosas e a suspensão de regras básicas, esse genitor busca comprar a lealdade emocional do filho, construindo uma imagem de “herói” que, por contraste, transforma o ex-parceiro no “vilão” da história.
No entanto, essa busca por ser o favorito esconde uma insegurança profunda e gera o que a justiça brasileira e a psicologia moderna classificam como uma forma sutil de alienação. Quando um pai ou uma mãe utiliza o sarcasmo para comentar as falhas do outro ou demonstra um “sofrimento performático” quando o filho se diverte na casa oposta, ele está enviando uma mensagem implícita de que a felicidade do filho é uma traição. Esse conflito de lealdade força a criança a desenvolver uma personalidade camaleônica: ela aprende a dizer apenas o que cada pai quer ouvir, sacrificando a própria autenticidade para preservar o frágil estado emocional dos adultos.
A longo prazo, o comportamento competitivo entre os pais anula a função primordial da parentalidade, que é oferecer segurança. Em vez de um porto seguro, a criança encontra um campo minado onde cada palavra deve ser medida para não desequilibrar a balança da disputa. O resultado é o surgimento da “criança parentificada”, aquela que amadurece precocemente para cuidar dos sentimentos dos pais, desenvolvendo níveis elevados de ansiedade e dificuldade em estabelecer limites saudáveis em suas futuras relações. O verdadeiro sucesso na parentalidade após a separação não reside em quem dá o melhor presente ou quem é mais flexível, mas na capacidade de ambos os adultos de reconhecerem que, para o filho ser saudável, ele precisa ter o direito de amar o outro genitor sem sentir culpa ou medo de retaliação.





