A paisagem urbana de João Pessoa, muitas vezes emoldurada pelo colorido das pipas, esconde um fio cortante que divide o lazer da criminalidade. Na tarde do último sábado (31), a Avenida Beira Rio tornou-se o cenário de um trauma previsível. Um motociclista, cuja identidade foi preservada, teve a trajetória interrompida na altura da comunidade São Rafael por uma linha banhada em cerol, mistura arcaica e letal de cola e vidro moído que, apesar de proibida, segue esticada sobre o tráfego da capital paraibana.
O impacto foi cirúrgico e devastador. Nem mesmo o uso do capacete foi capaz de proteger a região do pescoço, atingida frontalmente pela linha tensionada. A ausência da “antena corta-pipa” na motocicleta, um acessório de baixo custo mas de vital importância, expôs a vulnerabilidade do condutor ao corte profundo. O socorro veio através do SAMU, que encaminhou a vítima em estado grave ao Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, unidade que rotineiramente absorve as consequências físicas dessa prática negligente.
Relatos colhidos nas proximidades da praça vizinha à Cagepa revelam que o episódio não é um ponto fora da curva, mas o resultado de uma reincidência tolerada. Moradores apontam que a utilização de linhas cortantes por crianças e adolescentes é comum na área, transformando o espaço público em um campo minado para quem utiliza veículos de duas rodas. O cerol e a linha chilena, ainda mais resistente e perigosa, operam em uma zona cinzenta de fiscalização, onde o entretenimento infantil flerta com o homicídio culposo.
Este incidente reacende o debate sobre a responsabilidade compartilhada entre o poder público e a sociedade civil. Enquanto a legislação estadual e municipal prevê sanções para o uso desses materiais, a eficácia das medidas é questionada diante da persistência dos casos. A segurança viária não se resume apenas ao cumprimento das leis de trânsito tradicionais, mas também ao controle de riscos externos que, por um descuido ou por uma diversão mal direcionada, podem silenciar vidas em pleno movimento.





