A política econômica brasileira atravessa um momento de mudança silenciosa, mas de impacto profundo no balanço da União. Sob a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, o Tesouro Nacional autorizou a concessão de R$ 206,6 bilhões em novos empréstimos para estados e municípios. O volume expressivo não representa apenas um suporte financeiro aos governadores e prefeitos, mas marca uma ruptura deliberada com o período de contenção observado entre 2016 e 2022, devolvendo ao crédito público o papel de motor do investimento regional.
Desse montante, a União atua como fiadora direta em R$ 173,7 bilhões, o que significa que, em caso de inadimplência, o governo federal assume a fatura. A estratégia, embora defendida como uma normalização necessária para destravar obras locais, encontra ceticismo entre analistas de mercado. O temor central reside na combinação entre o aumento do endividamento e a desaceleração do Produto Interno Bruno (PIB). Com o crescimento econômico perdendo fôlego, a arrecadação de estados e municípios tende a recuar, comprimindo a margem de manobra para o pagamento das prestações e empurrando o ônus para as contas federais.

O cenário atual guarda semelhanças inquietantes com o ciclo ocorrido entre 2012 e 2014. Naquela ocasião, o estímulo ao crédito regional sem o devido lastro de receita culminou em uma crise fiscal severa, forçando o Congresso a aprovar sucessivas medidas de socorro. Hoje, a situação é agravada pelo uso de emendas parlamentares como garantia indireta para novos contratos. Como essas verbas são voláteis e dependem do xadrez político em Brasília, a segurança do pagamento futuro torna-se uma incógnita matemática.
No topo da lista de beneficiários, São Paulo e Piauí exemplificam a heterogeneidade política dessa expansão. O governo paulista, sob Tarcísio de Freitas, lidera as autorizações com R$ 22,7 bilhões voltados para a infraestrutura e parcerias com o setor privado. No Nordeste, Rafael Fonteles projeta o Piauí como um polo de investimentos em transição energética, ancorado em R$ 16,1 bilhões autorizados. Ambos defendem que a saúde fiscal de seus estados permite o alavancagem, mas o sistema financeiro observa com cautela.
Instituições públicas como o Banco do Brasil, a Caixa e o BNDES são os principais braços executores dessa política, operando com a premissa de que as garantias são robustas. Contudo, economistas alertam para um efeito dominó a partir de 2026. Com os municípios já registrando déficits desde o ano passado, a convergência entre o ciclo eleitoral, a redução de desembolsos de programas de renegociação anteriores e o serviço das novas dívidas pode gerar um estrangulamento financeiro. A questão que paira sobre a Esplanada dos Ministérios é se o país está financiando um novo ciclo de desenvolvimento ou apenas adubando o terreno para a próxima crise de solvência do Estado.





