Catherine O’Hara sempre teve um tempo cômico impecável, mas desta vez ela realmente exagerou na saída dramática. A atriz, que transformou o desespero materno em arte e a cafonice suburbana em patrimônio cultural, faleceu nesta sexta-feira (30), aos 71 anos. A confirmação veio de forma quase burocrática por um porta-voz do escritório de seu empresário, Marc Gurvitz, um daqueles informantes anônimos que parecem saídos diretamente de um roteiro de Christopher Guest, recusando-se a dar nomes como se guardassem o segredo da fórmula da Coca-Cola.

Nascida no celeiro de talentos do Second City canadense, O’Hara não apenas interpretava personagens; ela os possuía, ou talvez fosse possuída por eles. Antes de se tornar a matriarca definitiva dos anos 90, ela já flertava com o bizarro em “Os Fantasmas se Divertem” (1988), provando que possuir uma mesa de jantar ao som de Harry Belafonte era apenas o começo de uma carreira pautada pelo absurdo elegante. No entanto, foi o grito icônico de “Kevin!” em “Esqueceram de Mim” que a imortalizou no panteão das mães negligentes mais amadas do globo, uma performance que gera royalties de ansiedade em pais de família até os dias de hoje.

Sua trajetória não foi feita de blockbusters genéricos, mas de uma curadoria refinada do ridículo humano. Ao lado de Christopher Guest, ela elevou o mockumentary ao status de alta literatura visual. Em “Best in Show” ou “Waiting for Guffman”, O’Hara destrinchava a classe média com a precisão de um cirurgião e o deboche de uma drag queen veterana. Ela entendia, como poucos, que a comédia não reside na piada em si, mas na seriedade absoluta com que o idiota defende sua idiotice.

Recentemente, ela viveu um renascimento tardio, embora ela nunca tenha ido a lugar algum, como Moira Rose em “Schitt’s Creek”. Com um sotaque transatlântico que desafiava as leis da linguística e um guarda-roupa de perucas que merecia um CPF próprio, Catherine lembrou a uma nova geração que a dignidade é opcional quando se tem talento. Sua partida deixa um vácuo que nem a melhor inteligência artificial ou o mais esforçado tiktoker conseguirá preencher, simplesmente porque a autenticidade do caos que ela entregava não pode ser codificada. Hollywood perde seu brilho satírico, e nós perdemos a mulher que nos ensinou que, no fim das contas, a vida é apenas um grande improviso com figurinos duvidosos.





