A geopolítica de Donald Trump acaba de adotar, talvez por acidente, a fatídica regra da “Loja de Cristais”: se você quebrou, você pagou. Ao decapitar a liderança de Nicolás Maduro, a Casa Branca não apenas removeu um autocrata do tabuleiro sul-americano, mas assinou a escritura de um inventário falido. O triunfalismo das redes sociais agora enfrenta a ressaca do “day after”, onde o presidente que sempre pregou o isolacionismo do “America First” se descobre, ironicamente, como o zelador involuntário de uma nação em escombros.
Thomas Friedman, com a acidez de quem já viu esse filme no Iraque e na Líbia, alerta que a euforia de curto prazo é o combustível predileto para desastres históricos. Trump, mestre em colocar seu nome em prédios e campos de golfe, agora corre o risco de batizar um caldeirão de instabilidade permanente. A estratégia de “pagar e levar” funciona bem em almoços de negócios, mas na geopolítica o preço costuma ser pago em décadas de caos. O paradoxo é quase satírico: o líder que prometeu construir muros para manter o mundo do lado de fora agora precisa administrar um país que exporta refugiados e instabilidade por todos os seus poros.
A equipe escalada para essa tarefa parece saída de um elenco de freelancers exóticos, misturando corretores de imóveis como Steve Witkoff a figuras televisivas como Pete Hegseth. Enquanto Marco Rubio assume o papel de arquiteto desse novo cenário, a dúvida que paira nos corredores de Washington é se esse time terá fôlego para jogar várias partidas simultâneas. Afinal, enquanto os olhos americanos se voltam para o “quintal” venezuelano, Vladimir Putin e Xi Jinping observam das sombras, celebrando cada grama de atenção e recurso que os Estados Unidos desviam da Ucrânia e de Taiwan para tentar consertar o que ajudaram a quebrar.
Derrubar o regime de Maduro foi o golpe de mestre que muitos venezuelanos celebraram, mas, como bem nota a resistência local, o “chavismo” ainda respira sob as ruínas. Se a transição falhar, o vácuo de poder não será preenchido por uma democracia vibrante, mas por um arquipélago de milícias e narcotraficantes que não respondem a ninguém. Trump acaba de fechar o negócio mais arriscado de sua carreira: ele destruiu a liderança, mas agora é o único responsável pelo que acontece a seguir. Resta saber se ele terá a paciência de um estadista ou se tentará resolver um Estado falido com a mesma impulsividade de um post de madrugada.





