O mapa da sobrevivência: comunidades do oeste baiano usam cartografia ancestral contra a expansão do agronegócio

​Ameaçados pela grilagem e latifúndio, agricultores de fundo e fecho de pasto transformam conhecimento territorial em ferramenta de denúncia e luta por regularização fundiária.

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O avanço implacável do agronegócio no Oeste da Bahia está empurrando as comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto para a beira do colapso. Segundo os próprios moradores, a expansão predatória de fazendas e empresas já consumiu aproximadamente 97% das áreas de uso comum que possuíam desde a década de 1970. O que resta, meros 3% do território original, é hoje o epicentro de intensos conflitos fundiários.

Em resposta à ameaça de desaparecimento, esses agricultores e camponeses elaboraram um detalhado mapa dos seus territórios. Este documento não é apenas uma representação geográfica, mas uma poderosa ferramenta de resistência que registra a presença secular dessas comunidades e cataloga as agressões sofridas no cotidiano. O mapa demarca as terras de uso coletivo, o curso dos rios, os pontos de grilagem e até mesmo as nascentes perdidas, servindo como um registro da memória ancestral e um mecanismo de denúncia.

Eldo Moreira Barreto, agricultor da comunidade Fecho de Clemente, em Correntina (BA), ressalta que a iniciativa visa a garantir a continuidade da história local. “É na tentativa de a gente conhecer [as terras e recursos] e, principalmente, para as novas gerações terem esse conhecimento”, afirma Barreto, destacando a importância da cartografia para a conscientização dos jovens e para a mobilização externa.

 

O mapeamento colaborativo, realizado em parceria com o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), transformou o saber territorial em um recurso fundamental para os processos de reconhecimento oficial e proteção das áreas. Isabel Figueiredo, coordenadora do programa Cerrado do ISPN, explica que o mapa serve como prova material na busca pela regularização fundiária e proteção dessas áreas coletivas, as quais são caracterizadas pelo manejo compartilhado da terra, onde rebanhos pastam livremente no Cerrado.

Os “fechos”, como são conhecidas essas áreas de livre circulação do gado (que podem se estender de 10 a 80 quilômetros de distância das comunidades), estão sendo alvo de uma apropriação de terras que, em muitos casos, remonta a centenas de anos de ocupação tradicional.

Barreto enfatiza que a disputa se concentra exatamente nesses poucos remanescentes de uso comum, enquanto o agronegócio já consolidou o domínio sobre a vasta maioria do que era território tradicional. O processo de invasão é detalhado em relatórios recentes, como o publicado pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, CPT e Amigos da Terra, que aponta para a apropriação de terras via especulação financeira e expansão de latifúndios, resultando em desmatamento massivo, contaminação por agrotóxicos e violência contra os moradores.

O impacto dessa expansão é visível na paisagem local. Em Correntina, por exemplo, a área plantada com soja saltou de 115.191 hectares em 2014 para 205.163 hectares em 2024. Essa monocultura crescente tem devastado a vegetação nativa, levando à morte de inúmeras nascentes.

O levantamento realizado pelas próprias comunidades identificou 69 nascentes ainda protegidas pelas famílias nos limites de seus territórios. Estas são cruciais para o abastecimento dos rios Correntina, Formoso e Arrojado, afluentes vitais do Rio Corrente, que por sua vez deságua no São Francisco. No entanto, o mesmo mapa identificou 19 pontos de conflito territorial ligados à grilagem e ao agronegócio, além de nascentes já extintas.

A escassez hídrica gerada pelo uso abusivo da água para irrigação do agronegócio não é novidade: o problema motivou a notória “Revolta de Correntina” em 2017. Cinco anos depois, os conflitos persistem, aumentando a vulnerabilidade dos fecheiros.

A urgência da situação foi levada à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) por Eldo Barreto, único representante dessas comunidades no evento. Barreto defendeu a importância do modo de vida tradicional no debate climático global, destacando-o como um modelo de produção sustentável e convivência com a natureza.

Na conferência, o agricultor entregou o mapa ao presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), César Aldrighi, cobrando celeridade na regularização das terras. “A responsabilidade de estabelecer um critério sobre isso é do Estado brasileiro e do estado da Bahia, não das comunidades. E o Estado está com muita morosidade”, criticou Barreto.

O Incra informou que a Superintendência na Bahia utilizará o mapa para o recadastramento das famílias tradicionais, um passo para a atualização de dados e posterior concessão de crédito, inserindo as famílias no Programa Nacional de Reforma Agrária. O instituto, no entanto, ainda não apresentou um prazo definitivo para a conclusão desse trabalho e a regularização dos territórios.

​O automapeamento, que envolveu 32 representantes de 16 territórios, foi um processo minucioso de validação de informações em grandes mapas impressos. O resultado, embora não cubra a totalidade das áreas de uso em função das limitações de participação, representa um marco na luta pela terra e pela memória cultural dessas comunidades ameaçadas.

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